O
livro da célebre jornalista Xinran é marcado por uma noção muito sensível do
real sentido de humanidade
e como ela se relaciona com questões políticas e sociais. Ele consiste
em um livro de histórias contadas pela boca de reais testemunhas, mostrando um
lado bastante complicado de
um país de dimensões continentais. Por estar
atrelado a um contexto histórico importantíssimo para o completo
entendimento dos fatos discorridos, por vezes peguei-me pesquisando na internet textos
sobre épocas, dinastias, líderes e leis chinesas, o que me foi de grande
proveito, me fornecendo informações já esquecidas ou jamais obtidas durante
minha vida escolar de formação geral.
Há tempos é sabido que há, na China, ainda na
contemporaneidade, um favoritismo por filhos homens e uma política de controle
de natalidade estabelecido desde o fim dos anos 70 – A
Política do Filho Único. O que não se sabe, na verdade, é que
não se trata de uma questão de sexismo, como muitas vezes é tratado pela mídia,
principalmente se a vida no campo e em cidades esquecidas forem levadas em
consideração.
Existe uma gama de razões que levam uma mãe
chinesa a desvencilhar-se de seus bebês. A mais rasa delas é uma mistura de
falta de informação, ausência de programas de saúde sexual e posturas conservadoras
no que diz respeito à sexualidade por parte da geração mais velha. O resultado desse
cocktail é moças que saem de uma vida
onde a sexualidade não é um tema que se coloca em pauta, ingressam na faculdade,
iniciam sua vida sexual e engravidam sem sequer compreender por que seus
ventres crescem. Mas essa é, na verdade, uma das razões pelo abandono de
crianças independente do sexo.
No
meio rural e em relação ao abandono de gênero, em comunidades que
tiram o sustento de atividades como caça e agricultura, a mão de obra para o
trabalho braçal é de extrema importância, e a habilidade masculina em trabalhos
de força se faz presente; dessa forma, um filho homem é visto como fonte de renda, enquanto uma filha mulher é
vista como despesa.
Há,
ainda, a questão que me pareceu a mais latente de todas no campo, que é o Sistema de Distribuição de Terras chinês. Esse sistema parte do
princípio de destinar campos de cultivo com base no número de membros de uma
família morando sob o mesmo teto. Porém, entende-se que as filhas mulheres se
casarão e passarão a fazer parte da
família de seus maridos. Portanto, o nascimento de uma menina não conta uma
cabeça a mais para o recebimento de terras, e assim, mais uma vez elas se
tornam um número. E assim, nos vilarejos, os meninos não apenas davam continuidade à linhagem familiar
e herdavam o nome do clã (já que as
mulheres não mais pertencem à família de origem após o casamento), mas também eram a fonte da propriedade
familiar e os criadores da riqueza da família.
Você pode unir esses fatores à Política do
Filho Único e perceber como a tragédia se forma. Em muitos lugares do campo, no
entanto, essa lei não funciona; o que acontece, na verdade, é que com todos os
fatores citados anteriormente, não é preciso lei alguma para que aconteça o
abandono de meninas. E essa foi uma parte chocante da leitura desse livro:
Perceber que o Planejamento Familiar e
Populacional chinês é um vilão, mas é o
menor de todos. A pobreza, a
desinformação e o sistema econômico quase feudal, juntos, são capazes de
arquitetar a catástrofe.
Na cidade, a situação muda de cenário.
Aparentemente, as justificativas para hábitos justificados são esquecidas
quando eles se enraízam, e o que surgiu da necessidade de sobrevivência se
perpetuou como uma crença, de
maneira que, mesmo com acesso à informação e não havendo todas as
circunstâncias que permeiam a vida no campo, é prioridade da família deixar um herdeiro homem. E, visto que na
cidade a lei se aplica de maneira draconiana e sabendo que nem todas as famílias
têm a sorte – aos olhos deles - de conseguir um filho homem na primeira
tentativa, o resultado da equação é previsível.
Ter mais um filho, na cidade, significaria a
perda do emprego, da casa (que era alocada pelo empregador), do direito às
rações de comida e de roupas, do direito da criança à educação e à assistência
médica, e até mesmo da chance de encontrar um outro emprego, já que ninguém
ousaria contratar uma pessoa com um “filho
extra”. E, assim, uma família teria de abrir mão de tudo.
Há uma religiosidade envolvida também no que
diz respeito aos ancestrais. Aparentemente, o primeiro (e único, dado o
contexto) filho homem de uma família possuiria o ônus de acender incensos para seus ancestrais, do contrário eles
poderiam enfurecer-se e isso traria mau agouro à família.
E
claro, finalmente, o livro tem a belíssima missão de mostrar para filhas
chinesas adotadas por estrangeiros (especialmente famílias ocidentais, estando
as americanas liderando as estatísticas) os problemas e sofrimentos pelos quais
suas mães chinesas passaram; a missão de responder à pergunta “por quê a minha mãe
chinesa não me quis?” e a de dar um pouco de paz aos corações das mães
que tiveram a oportunidade de, através desse livro, contar a versão delas da
história.
Essa resenha foi baseada na obra citada no título. Achou que eu entendi algo de modo equivocado? Me envie uma mensagem!