segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

RESENHA 01 - "Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida" (Xinran)

O livro da célebre jornalista Xinran é marcado por uma noção muito sensível do real sentido de humanidade e como ela se relaciona com questões políticas e sociais. Ele consiste em um livro de histórias contadas pela boca de reais testemunhas, mostrando um lado bastante complicado de um país de dimensões continentais. Por estar atrelado a um contexto histórico importantíssimo para o completo entendimento dos fatos discorridos, por vezes peguei-me pesquisando na internet textos sobre épocas, dinastias, líderes e leis chinesas, o que me foi de grande proveito, me fornecendo informações já esquecidas ou jamais obtidas durante minha vida escolar de formação geral.
Há tempos é sabido que há, na China, ainda na contemporaneidade, um favoritismo por filhos homens e uma política de controle de natalidade estabelecido desde o fim dos anos 70 – A Política do Filho Único. O que não se sabe, na verdade, é que não se trata de uma questão de sexismo, como muitas vezes é tratado pela mídia, principalmente se a vida no campo e em cidades esquecidas forem levadas em consideração.
Existe uma gama de razões que levam uma mãe chinesa a desvencilhar-se de seus bebês. A mais rasa delas é uma mistura de falta de informação, ausência de programas de saúde sexual e posturas conservadoras no que diz respeito à sexualidade por parte da geração mais velha. O resultado desse cocktail é moças que saem de uma vida onde a sexualidade não é um tema que se coloca em pauta, ingressam na faculdade, iniciam sua vida sexual e engravidam sem sequer compreender por que seus ventres crescem. Mas essa é, na verdade, uma das razões pelo abandono de crianças independente do sexo.
No meio rural e em relação ao abandono de gênero, em comunidades que tiram o sustento de atividades como caça e agricultura, a mão de obra para o trabalho braçal é de extrema importância, e a habilidade masculina em trabalhos de força se faz presente; dessa forma, um filho homem é visto como fonte de renda, enquanto uma filha mulher é vista como despesa.
Há, ainda, a questão que me pareceu a mais latente de todas no campo, que é o Sistema de Distribuição de Terras chinês. Esse sistema parte do princípio de destinar campos de cultivo com base no número de membros de uma família morando sob o mesmo teto. Porém, entende-se que as filhas mulheres se casarão e passarão a fazer parte da família de seus maridos. Portanto, o nascimento de uma menina não conta uma cabeça a mais para o recebimento de terras, e assim, mais uma vez elas se tornam um número. E assim, nos vilarejos, os meninos não apenas davam continuidade à linhagem familiar e herdavam o nome do clã (já que as mulheres não mais pertencem à família de origem após o casamento), mas também eram a fonte da propriedade familiar e os criadores da riqueza da família.
Você pode unir esses fatores à Política do Filho Único e perceber como a tragédia se forma. Em muitos lugares do campo, no entanto, essa lei não funciona; o que acontece, na verdade, é que com todos os fatores citados anteriormente, não é preciso lei alguma para que aconteça o abandono de meninas. E essa foi uma parte chocante da leitura desse livro: Perceber que o Planejamento Familiar e Populacional chinês é um vilão, mas é o menor de todos. A pobreza, a desinformação e o sistema econômico quase feudal, juntos, são capazes de arquitetar a catástrofe.
Na cidade, a situação muda de cenário. Aparentemente, as justificativas para hábitos justificados são esquecidas quando eles se enraízam, e o que surgiu da necessidade de sobrevivência se perpetuou como uma crença, de maneira que, mesmo com acesso à informação e não havendo todas as circunstâncias que permeiam a vida no campo, é prioridade da família deixar um herdeiro homem. E, visto que na cidade a lei se aplica de maneira draconiana e sabendo que nem todas as famílias têm a sorte – aos olhos deles - de conseguir um filho homem na primeira tentativa, o resultado da equação é previsível.
Ter mais um filho, na cidade, significaria a perda do emprego, da casa (que era alocada pelo empregador), do direito às rações de comida e de roupas, do direito da criança à educação e à assistência médica, e até mesmo da chance de encontrar um outro emprego, já que ninguém ousaria contratar uma pessoa com um “filho extra”. E, assim, uma família teria de abrir mão de tudo.
Há uma religiosidade envolvida também no que diz respeito aos ancestrais. Aparentemente, o primeiro (e único, dado o contexto) filho homem de uma família possuiria o ônus de acender incensos para seus ancestrais, do contrário eles poderiam enfurecer-se e isso traria mau agouro à família.
E claro, finalmente, o livro tem a belíssima missão de mostrar para filhas chinesas adotadas por estrangeiros (especialmente famílias ocidentais, estando as americanas liderando as estatísticas) os problemas e sofrimentos pelos quais suas mães chinesas passaram; a missão de responder à pergunta “por quê a minha mãe chinesa não me quis?” e a de dar um pouco de paz aos corações das mães que tiveram a oportunidade de, através desse livro, contar a versão delas da história.


Essa resenha foi baseada na obra citada no título. Achou que eu entendi algo de modo equivocado? Me envie uma mensagem!